Wi-Fi da Alma - Edição #005
Acabei de voltar de uma semana de férias com meu marido e meu filho.
Foram dias de praia, piscina, spa, diversão, descanso e, principalmente, consegui fazer uma coisa que nem sempre é tão simples para mim: desligar.
Não estou falando apenas de deixar o celular de lado. Estou falando de não ter grandes planos, não precisar produzir nada, não ficar pensando no que deveria estar fazendo.
Fazer nada. Literalmente. E isso me fez pensar em como cheguei até aqui.

A festa que virou viagem
Meu filho está completando quatro anos. E, desde o primeiro aniversário dele, temos uma tradição: em vez de fazer uma festa, fazemos uma viagem - e isso não significa que nunca faremos uma grande festa, porque faremos.
Mas essa história começou com uma frustração: quando ele ia completar um ano, contratamos um buffet para comemorar a data. Tudo estava encaminhado até que, três meses antes da festa, quiseram mudar o dia que eu havia reservado, jogando-a para o mês seguinte. Não aceitamos.
Pedimos o cancelamento e a devolução do dinheiro. E, no meio daquela situação, surgiu uma ideia: e se, em vez de fazer a festa, viajássemos?
Comecei a pesquisar resorts no Nordeste e encontrei uma opção para passarmos uma semana fora. O mais curioso é que a viagem ficou mais barata do que a festa.
E assim, um plano que nasceu de uma frustração acabou se transformando em uma tradição da nossa família.
Desde então, todo aniversário do meu filho é também uma oportunidade de conhecer um lugar novo, passar alguns dias juntos e criar lembranças.
Não estou dizendo que fazer festa é errado. Muito pelo contrário. Cada família tem seus desejos, suas possibilidades e suas formas de comemorar. Aqui, todo ano tem bolo e festinha com avós e tias e ainda faremos uma festa grande para ele.
Mas, naquele primeiro ano, percebi que talvez eu estivesse seguindo um roteiro sem ter parado para pensar se era realmente o que queria.
Uma festa parecia ser o caminho natural. Era o que se esperava para comemorar o primeiro aniversário de uma criança. Só que, quando os planos mudaram, tive a oportunidade de fazer outra escolha.
E gosto de pensar que não perdemos uma festa. Encontramos uma maneira diferente de comemorar.

O que fazemos quando as coisas não saem como planejamos?
Nem sempre uma frustração termina numa boa história. Às vezes, ela dói, custa dinheiro, muda planos importantes e deixa marcas.
Não quero transformar toda decepção numa lição bonita, mas existe uma pergunta que tenho aprendido a fazer diante de algumas situações:
Já que não aconteceu como eu queria, o que posso fazer a partir daqui?
Nem sempre temos controle sobre o que acontece. Mas, em algumas situações, podemos escolher o que fazer depois.
Naquele primeiro aniversário, eu poderia ter passado os dias seguintes tentando encontrar outro buffet, organizar tudo novamente e manter o plano original. Em vez disso, encontrei uma alternativa que fazia sentido para nós.
E aquela escolha me fez perceber outra coisa: às vezes, a frustração também aparece quando tentamos corresponder a uma expectativa que nem sequer questionamos.
Eu queria comemorar o aniversário do meu filho. Mas precisava ser com uma grande festa? A resposta, para mim, foi não.
E você? Quantas vezes já insistiu em um plano porque acreditava que era assim que as coisas deveriam ser feitas?
De férias, mas ainda conectados
Nesta última viagem, observei uma coisa que me chamou a atenção. Estávamos em um lugar pensado para o lazer: praia, piscinas, atividades para as crianças, comida, bebidas e espaços para descansar. Um ambiente em que, pelo menos em teoria, havia muitos motivos para deixar as preocupações do lado de fora.
Mesmo assim, vi muitas pessoas com os olhos voltados para o celular.
Não sei o que cada uma estava fazendo. Talvez estivessem falando com a família, resolvendo questões de trabalho, registrando a viagem ou simplesmente passando o tempo. Não dá para saber apenas olhando.
Mas aquela cena me fez pensar.
Se estamos em um lugar onde fomos para descansar, por que tantas vezes continuamos buscando alguma coisa na tela?
Será que é hábito? Será que sentimos necessidade de saber o que está acontecendo lá fora? Ou será que desaprendemos um pouco a ficar no lugar em que estamos, sem procurar outro estímulo?
Não tenho uma resposta definitiva. Até porque eu também conheço bem esse impulso de pegar o celular sem ter um motivo muito claro.
Mas, nessa semana, consegui experimentar algo diferente.
Estar de férias também é sair do piloto automático
Não precisei seguir um método, cumprir uma meta de desconexão ou estabelecer uma lista de regras. Apenas vivi os dias.
Brinquei com meu filho, aproveitei os momentos com meu marido, fiquei na praia, entrei na piscina e descansei. E também não fiz nada.
Não transformei cada momento em uma oportunidade de produzir conteúdo, não precisei registrar tudo e não fiquei preocupada em aproveitar cada minuto da maneira mais eficiente possível. Pelo menos durante boa parte da viagem, consegui estar ali.
Isso me fez pensar que talvez a desconexão não comece apenas quando guardamos o celular. Ela também acontece quando deixamos de exigir alguma coisa de cada minuto do nosso dia.
Nem todo momento precisa virar uma lembrança fotografada. Nem todo intervalo precisa ser preenchido. Nem todo dia precisa render alguma coisa que possamos mostrar depois.
Às vezes, descansar é simplesmente descansar.
E talvez seja justamente isso que torna tão difícil fazer nada: estamos acostumados a medir o tempo pelo que realizamos, resolvemos, aprendemos ou mostramos. Quando não há nada para entregar, podemos até sentir que estamos desperdiçando o dia. Mas será que estamos?
Essas reflexões sobre o tempo que entregamos às telas também deram origem ao meu livro Há Vida Fora das Telas.
Se você quiser aprofundar essa conversa, conheça o livro aqui.
O que vale a pena levar de uma viagem?
Voltei para casa com as lembranças de mais uma comemoração e com a sensação boa de ter desligado. Não porque tenha conseguido fazer tudo o que queria, conhecer todos os lugares ou aproveitar cada minuto. Mas porque, por alguns dias, não precisei fazer isso.
A viagem começou, anos atrás, com uma frustração. Hoje, é uma tradição que faz sentido para a nossa família.
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes da vida: nem sempre precisamos insistir no plano original. Podemos rever nossas expectativas, encontrar outros caminhos e descobrir que uma escolha diferente também pode ser boa.
O mesmo vale para a maneira como usamos nosso tempo. Podemos passar as férias inteiras em um lugar maravilhoso e continuar mentalmente em outro. Podemos estar diante do mar e pensando nas mensagens que ainda não respondemos. Podemos ter algumas horas livres e preenchê-las automaticamente com uma tela.
Ou podemos experimentar, mesmo que por alguns minutos, ficar onde estamos. Sem precisar transformar isso em uma regra ou em mais uma tarefa para cumprir.
Talvez não seja necessário esperar pelas próximas férias para fazer essa experiência.

Agora quero saber de você
Quando os seus planos dão errado, você costuma insistir no que havia imaginado ou consegue encontrar outro caminho?
E, quando finalmente tem um tempo livre, consegue descansar de verdade ou sente que precisa preencher cada minuto com alguma coisa?
Responda a este e-mail. Vou adorar conhecer a sua experiência.
Com carinho,
Cibele Modesti
Universo Wi-Fi da Alma
Pausa. Presença. Vida.
P.S.
Você não precisa esperar as próximas férias para descansar. Talvez possa começar hoje, reservando dez minutos sem celular, sem tarefas e sem a obrigação de aproveitar esse tempo de alguma maneira.
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