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Wi-Fi da Alma - Edição #006

Estudo inglês por meio de um aplicativo há 618 dias. De todo esse tempo, dá para contar nos dedos das mãos quantos dias fiquei sem praticar.

Em um deles, eram 23h30 e eu tinha até meia-noite para praticar e garantir a minha ofensiva. Peguei o celular e abri o aplicativo. Lembrei que precisava responder a uma breve mensagem no WhatsApp e lá fui eu.

Já nem me lembro quais aplicativos abri depois, quantas mensagens respondi ou o que fui olhar. Mas sei que perdi o horário e, quando me dei conta, já passava da meia-noite.

Eu tinha pegado o celular para cumprir uma tarefa e acabei fazendo tantas outras que esqueci justamente o que precisava fazer.

Já aconteceu com você?

Só ia dar uma olhadinha

Quantas vezes você já pegou o celular para fazer alguma coisa e, quando percebeu, estava fazendo outra completamente diferente?

Você vai responder a uma mensagem. Aparece uma notificação. Aproveita para conferir uma publicação, vê um vídeo, lembra de outra coisa e resolve procurar uma informação.

Quando se dá conta, passaram-se vários minutos. E o que você tinha ido fazer mesmo?

O curioso é que, muitas vezes, nem precisamos de um motivo importante para pegar o celular. A mão vai sozinha. Estamos esperando alguma coisa, sentamos ao sofá, acordamos ou fazemos uma pausa entre duas tarefas… e lá está ele.

Às vezes, nem sabemos exatamente o que estamos procurando. Só desbloqueamos a tela e começamos a olhar.

Uma mensagem puxa outra. Uma publicação leva a um vídeo. Um vídeo leva a outro. E acabamos consumindo informações que não procurávamos, não precisávamos e, provavelmente, nem vamos lembrar depois.

Mas será que o problema está apenas no tempo que perdemos?

Ou também no fato de que nem percebemos o que estamos fazendo com ele?

Quando o hábito escolhe por nós

Existe uma diferença entre pegar o celular porque você decidiu fazer alguma coisa e pegá-lo sem saber muito bem por quê.

No primeiro caso, você tem uma intenção. Precisa consultar um endereço, fazer uma transferência, responder a uma mensagem ou resolver alguma questão.

No segundo, você simplesmente abre a porta e deixa o que aparecer decidir o próximo passo.

Uma notificação chama sua atenção. Uma novidade desperta curiosidade. Uma mensagem faz você lembrar outra. E, quando percebe, já está longe do motivo que o levou até ali.

Não estou dizendo que precisamos usar o celular apenas para coisas importantes. Eu também gosto de olhar novidades, conversar com pessoas e descobrir coisas interessantes pela internet.

A questão é outra: será que estamos escolhendo o que fazer ou apenas seguindo o que aparece na tela?

Quantas vezes interrompemos o que estamos fazendo para olhar o celular, mesmo quando nada urgente está acontecendo?

Estamos lendo um livro, assistindo a um filme, conversando com alguém, fazendo uma refeição ou até descansando. O aparelho está por perto e, de repente, parece que um ímã o trouxe até nossas mãos.

O tempo que não percebemos passar

Quando pensamos no tempo que passamos diante das telas, é comum imaginar aquelas horas em que ficamos sentados assistindo a vídeos ou percorrendo as redes sociais.

Só que o tempo também vai embora nos pequenos intervalos.

Naqueles minutos em que esperamos alguém. Na pausa entre uma tarefa e outra. Na ida ao banheiro. Na hora em que deitamos para dormir e resolvemos olhar só mais uma coisa.

Cada momento, isoladamente, pode parecer insignificante. Afinal, foram só alguns minutos, certo? Mas quantas vezes isso acontece ao longo do dia?

E o que deixamos de fazer, perceber ou simplesmente viver nesses intervalos?

Não estou sugerindo que todo minuto precise ser produtivo. Muito pelo contrário. Não precisamos transformar cada espaço livre em uma oportunidade para estudar, trabalhar, organizar a casa ou cumprir mais uma tarefa.

Às vezes, precisamos mesmo é de não fazer nada.

Olhar pela janela. Tomar um café sem acompanhar outra coisa ao mesmo tempo. Ficar alguns minutos em silêncio. Ou deixar o pensamento seguir seu caminho sem precisar preencher cada pausa com alguma informação.

O que me preocupa não é o tempo de descanso. É quando já não conseguimos escolher como queremos passar esse tempo porque o hábito escolhe por nós.

Você ainda consegue ficar sem fazer nada?

Experimente lembrar a última vez em que precisou esperar por alguma coisa sem ter o celular à mão. Uma consulta médica, uma fila, a espera por alguém que estava atrasado, uma viagem. O que você fez?

Ficou olhando ao redor? Observou as pessoas? Pensou na vida? Ou sentiu vontade de pegar o celular quase imediatamente?

E, quando não tem nada para olhar, você consegue simplesmente ficar ali?

Não existe uma resposta certa para essas perguntas. E eu não quero transformar o uso do celular em mais uma coisa pela qual devemos nos sentir culpados.

A tecnologia facilita muita coisa na nossa vida. O próprio celular nos permite conversar com pessoas queridas, aprender, trabalhar, ler e descobrir lugares que talvez nunca conhecêssemos.

Mas uma ferramenta que pode nos ajudar também pode ocupar espaços que gostaríamos de usar de outra maneira.

Talvez a questão não seja abandonar o celular, mas perceber quando deixamos de usá-lo por escolha e começamos a usá-lo por hábito.

Porque, se fazemos alguma coisa tantas vezes sem perceber, como vamos decidir se queremos continuar fazendo?

Um pequeno teste para hoje

Não vou propor que você passe o dia inteiro longe do celular, desative todas as notificações ou mude sua rotina de uma hora para outra. Quero sugerir algo bem menor.

Na próxima vez que pegar o celular, pare por um instante antes de desbloquear a tela.

Pergunte a si mesmo: o que eu vim fazer aqui?

Se souber a resposta, faça o que precisa e siga seu dia.

Se não souber, tudo bem também. Você pode guardar o aparelho e observar o que acontece. Talvez descubra que queria apenas preencher um intervalo ou estava entediado. Talvez precisasse de uma pausa, mas tenha confundido descansar com procurar estímulos. Não precisa se julgar, só perceba.

E, se quiser ir um pouco além, observe quantas vezes isso acontece ao longo do dia.

A ideia não é controlar cada movimento, mas recuperar a possibilidade de escolher.

Afinal, como podemos mudar um hábito que nem percebemos que temos?

Há vida fora das telas

Essas pequenas situações fazem parte das reflexões que me levaram a escrever Há Vida Fora das Telas.

O livro nasceu da vontade de olhar com mais atenção para a nossa relação com a tecnologia e para tudo aquilo que pode estar acontecendo enquanto estamos diante de uma tela.

Não se trata de demonizar o celular nem de defender uma vida desconectada. Trata-se de perceber que a vida também acontece quando não estamos olhando para ele.

Se essa conversa fez você pensar nos seus próprios hábitos, talvez goste de continuar essa reflexão comigo.

E agora quero saber de você: quando pega o celular, costuma saber exatamente o que foi fazer ou, às vezes, também se esquece pelo caminho?

Pode responder a este e-mail. Eu leio as mensagens que recebo e gosto de saber como essas reflexões chegam até você.

Um abraço,

Cibele Modesti
Universo Wi-Fi da Alma
Pausa. Presença. Vida.

P.S. Hoje, experimente deixar o celular por alguns minutos em outro cômodo enquanto toma um café ou faz uma refeição. Não para cumprir um desafio, mas para perceber como é estar ali sem ele por perto.

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